Em julho, o Amazonas vendeu US$ 120,85 milhões para o exterior e comprou US$ 1,83 bilhão. A conta fechou com um rombo de US$ 1,70 bilhão, quinze vezes o valor que o estado exportou no mesmo mês, segundo o boletim mensal da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedecti).
Existe um número que costuma soar como alarme pra quem olha rápido: comprar muito mais do que vender é, na maioria dos lugares, sinal de economia fraca. Só que dentro da Zona Franca de Manaus essa conta funciona ao contrário, e entender por quê muda a forma como você lê qualquer indicador econômico da região.
O que saiu e o que entrou em julho

Boa parte da pauta exportadora do mês teve um único protagonista: ouro em formas semimanufaturadas. Foram US$ 35,85 milhões vendidos para a Alemanha, 99,99% de tudo que o Amazonas exportou pra esse país no período. O restante veio de frentes menores espalhadas pelo interior: Presidente Figueiredo mandou US$ 9,63 milhões em ferro-ligas pra China, e Itacoatiara embarcou US$ 326,29 mil em soja triturada pra Grécia.
Do lado de dentro, o fluxo foi bem maior e mais concentrado em insumo industrial. A China vendeu ao Amazonas US$ 92,16 milhões em componentes eletrônicos, os Estados Unidos venderam US$ 68,18 milhões em óleos de petróleo, e o município de Silves sozinho importou US$ 59,99 milhões em grupos eletrogêneos e conversores rotativos, também dos Estados Unidos.
Por que comprar 15 vezes mais do que vender não assusta quem conhece o Polo Industrial
O modelo da Zona Franca não foi pensado pra vender produto acabado pro mundo. Ele foi pensado pra importar insumo, montar aqui dentro e vender pro resto do Brasil. É por isso que a conta de exportação sempre vai ser pequena perto da de importação: o produto final não sai pelo mesmo caminho que o componente entrou, ele segue pro mercado interno brasileiro.
O secretário Gustavo Igrejas, da Sedecti, associou o resultado justamente a esse movimento: segundo ele, o volume de importações reflete o crescimento da atividade industrial do estado, sobretudo do Polo Industrial de Manaus. Quanto mais fábrica funcionando, mais componente entrando pela alfândega, e isso é o oposto de um estado parado.
“Um rombo de R$ 1,7 bilhão parece grave.” Grave seria esse dinheiro sumir sem gerar nada aqui dentro

A palavra déficit carrega peso de problema porque, em economias que vivem de exportar matéria-prima, comprar mais do que vender de fato é sinal de alerta. No Amazonas o raciocínio é outro: o que entra pela importação vira insumo de linha de produção, empresa funcionando, gente empregada dentro do Polo Industrial e imposto recolhido aqui dentro.
Isso não quer dizer que o número seja irrelevante pra quem toca negócio na região. Ele diz o oposto: quanto maior a dependência de insumo importado, maior a exposição da sua empresa a câmbio, prazo de desembaraço aduaneiro e mudança de alíquota de importação. Já mostramos aqui como as importadoras do Simples Nacional podem aproveitar a isenção de IPI nesse mesmo fluxo de compra internacional.
A diferença entre ler a manchete do déficit e usar o dado pra decidir
Quem só vê a palavra déficit numa manchete tende a esquecer o número no mês seguinte. Quem opera dentro ou ao redor do Polo Industrial sabe que essa série mensal é um termômetro real: mostra se o volume de insumo importado está subindo, se a dependência de um único parceiro comercial está aumentando, se o câmbio do mês pesou mais na conta do que o esperado.
Traduzir esse tipo de indicador pro fluxo de caixa específico da sua empresa, câmbio contratado, prazo de importação, incentivo fiscal aplicável, é trabalho de quem acompanha o comércio exterior da Zona Franca de perto, não de quem lê o resultado do mês uma vez e segue em frente.
Se a sua empresa depende de insumo importado dentro da Zona Franca de Manaus, vale revisar com a Bono Conta como esse cenário cambial e tributário entra no seu planejamento.
Com informações de Revista PIM Amazônia · boletim mensal da Sedecti. Análise e texto: Redação Bono Conta.
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