Em julho de 2025, a Michelin anunciou o encerramento da fábrica que mantinha havia mais de setenta anos em Guarulhos, na Grande São Paulo. Foram 350 demissões, com desligamentos ao longo do segundo semestre até o fim total das atividades em dezembro daquele ano. A unidade produzia câmaras de ar para motos e bicicletas, pneus industriais e componentes semiacabados para outras etapas da cadeia do grupo.
Existe um raciocínio silencioso que multinacional grande, marca forte e décadas de operação costumam inspirar: a sensação de que porte protege. A Michelin opera oito fábricas no Brasil, com mais de oito mil funcionários em seis estados. Nada disso impediu o fechamento de uma delas. O motivo que a própria empresa declarou não foi queda de demanda, foi o que ela chamou de supercapacidade gerada por produtos importados da Ásia, vendidos abaixo do custo de produção local.
O que a empresa disse, e o que os números confirmam

Hervé Le Gavrian, CEO da Michelin América do Sul, afirmou que a decisão “de forma alguma está relacionada ao desempenho desse time”, e que a companhia ofereceria apoio individual aos 350 colaboradores afetados, com pacote financeiro e orientação profissional negociados com o sindicato. A explicação técnica é direta: quando o preço do produto importado fica abaixo do custo de fabricar aquele mesmo produto aqui, a fábrica local deixa de fazer sentido financeiro, por melhor que seja a operação.
“Mas eu não fabrico pneu, isso não me afeta”
É verdade para o produto específico, e é engano para a lógica por trás dele. O mesmo mecanismo que fechou uma fábrica de setenta anos em Guarulhos aperta qualquer negócio que compita, direta ou indiretamente, com mercadoria importada vendida abaixo do custo de fazer o equivalente no Brasil. Comércio, indústria de transformação e até prestador de serviço que compra insumo importado sentem essa pressão de formas diferentes, mas sentem.
A proteção existe, e não cobre tudo igual

O Brasil tem hoje medidas antidumping em vigor contra pneus de automóvel, moto e caminhão vindos da China, prorrogadas por até cinco anos, algumas até 2030. Isso é real e é comprovável. O que a fábrica de Guarulhos produzia, porém, eram câmaras de ar e componentes semiacabados, categoria diferente da coberta por essas medidas. A defesa comercial brasileira existe, mas ela é específica por produto, não é um guarda-chuva que cobre uma cadeia inteira.
Essa é a parte que costuma escapar do empresário que não acompanha comércio exterior de perto: presumir que “o governo protege a indústria” como bloco único é presumir errado. A proteção é linha por linha, processo administrativo por processo administrativo, e o seu produto específico pode estar dentro ou fora dela, com a mesma facilidade.
O que dá para fazer com essa informação
Primeiro, saber onde a sua atividade se encaixa: se o insumo ou o produto final que você compra ou vende tem medida de defesa comercial vigente é informação pública, consultável, e ela muda a decisão de precificação e de fornecedor. Segundo, entender que margem apertada por importado não se resolve reclamando do concorrente estrangeiro, se resolve revisando estrutura de custo, porque foi exatamente a comparação custo contra preço que decidiu o fechamento em Guarulhos. Terceiro, desconfiar de qualquer leitura que tente resumir um evento econômico complexo numa frase de bandeira política. Fatos econômicos têm causa técnica, e essa causa é o que orienta decisão, não o vice-versa.
O que separa quem só lê a notícia de quem se protege dela
Uma fábrica fechar em São Paulo parece, à primeira vista, notícia distante para quem opera em Manaus. Não é. A pressão de importado abaixo do custo local é a mesma força que qualquer empresário que compete com mercadoria estrangeira sente na prateleira, no orçamento e na margem. A diferença entre absorver esse golpe e se antecipar a ele está em conhecer a fundo a própria estrutura de custo e o enquadramento fiscal do que se compra e do que se vende, não em torcer para que a concorrência desista primeiro.
Entender onde a sua margem é vulnerável a importado é trabalho de análise fina, e a Bono Conta ajuda a fazer essa conta.
Ficou com dúvidas? Fale agora pelo WhatsApp
Nossa equipe responde em minutos durante o horário comercial, de segunda a sexta, das 8h às 17h.